DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

http://www.doepalavras.com.br/

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Somos todos Michael Jackson POR NINA LEMOS - COLUNISTA DA FOLHA Michael Jackson achava que iria viver para sempre. Para conseguir tal feito, dormia em uma câmara hiperbárica. Também não queria envelhecer. Achava que conseguiria isso fazendo plásticas. Dezenas delas. Aproveitava as cirurgias para também mudar de rosto e virar outra pessoa. E, claro, realizava tantos tratamentos para a pele nessa tentativa de ser Peter Pan (e branco) que era íntimo de seu dermatologista. Há rumores de que o verdadeiro pai de dois dos seus filhos seja o médico. Quanta intimidade! O cantor que inventou o "moonwalk" também não queria sentir dores. E por isso tomava doses cavalares de analgésicos, curiosamente chamados em inglês de "pain killers", assassinos da dor. Simples assim. Muito assustador isso tudo. E muito simbólico dos tempos em que vivemos. Sim, também não queremos envelhecer. Compramos os mais modernos cremes anti-idade (como se idade fosse uma coisa maléfica). Quando eles não funcionam, apelamos para Botox e tratamentos de preenchimentos. E, claro, para a cirurgia plástica, terreno em que nós, brasileiros, assim como Michael, somos campeões. O Brasil é o segundo país onde mais se faz plástica no mundo. O primeiro são os Estados Unidos. Se aceitamos sentir dor? Claro que não. Temos um imenso arsenal de antidepressivos que nos colocam livres dos nossos fantasmas. E uma pesquisa divulgada pelo Instituto IMS Health mostrou que o remédio mais vendido no Brasil em 2008 foi o Dorflex, um "pain killer" usado por todos para qualquer tipo de dor. Achamos que podemos driblar a morte com dietas da longevidade, comprimidos ortomoleculares, obsessão por exercício físico e uma vida regrada. Às vezes tão regrada que nos impede de viver. E agora, com a febre da gripe suína, ganhamos um medo novo: o vírus. Uma fobia antiga de Michael, que saía na rua com máscaras com medo de ser "contaminado". Estamos, no momento, chocados com a vida e a morte de uma pessoa que vivia em um lugar chamado Neverland, a Terra do Nunca, onde o tempo podia parar e se podia ser criança para sempre, com uma vida isolada do resto da humanidade. Acompanhamos as notícias do funeral de nossos computadores e telefones celulares, onde, de certa forma, também nos isolamos e congelamos o tempo enquanto "brincamos" em sites como o Twitter, o Facebook e o Orkut. Nesses lugares (que só existem virtualmente), nos relacionamos com as pessoas sem correr o risco de ser contaminados por vírus ou por outras coisas tão humanas. Estamos todos assustados e curiosos. Como alguém pôde viver assim? Como alguém morre supostamente de overdose de Demerol (um "pain killer" poderoso)? Estamos apavorados porque no fundo, e também na superfície, em pequena escala somos todos Michael Jackson. Ou vai dizer que você não tem um dermatologista de confiança?

Nenhum comentário:

Postar um comentário