DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Sobre a mesa


(Essa moça tá diferente/ Já não me conhece mais/ Está pra lá de pra frente/Está me passando pra trás/ Essa moça tá decidida/ A se supermodernizar/ Ela só samba escondida/ Que é pra ninguém reparar/ Eu cultivo rosas e rimas/ Achando que é muito bom/ Ela me olha de cima/ E vai desinventar o som/ Faço-lhe um concerto de flauta/ E não lhe desperto emoção/ Ela quer ver o astronauta/ Descer na televisão/ Mas o tempo vai/ Mas o tempo vem/ Ela me desfaz/ Mas o que é que tem/ Que ela só me guarda despeito/ Que ela só me guarda desdém/ Mas o tempo vai/ Mas o tempo vem (...)
“Essa moça tá diferente” – Chico Buarque)


Meu rosto resta pesado, debruçado sobre as mãos, empurrando as bochechas, disfarçando um sorriso. Enquanto isso, ele escolhe o vinho, a pizza e me pergunta se tudo agrada. Meus olhos permanecem vivos, mas dentro de mim sou só silêncio.
A sedução é um jogo que às vezes cansa. E nessas horas me pergunto, porque afinal os homens se dizem tão diferentes, se quando te chamam para sair, fazem sempre a mesma coisa? Acho que vim só pelo jantar de graça. E não sei se me arrependo.
Ele se esforça para pegar as minhas mãos. Diz inúmeras vezes o quanto são macias. Elogia minha inteligência. Meu sorriso. Minha simpatia. Meu ego não infla. Nem mesmo por um segundo. Acho que não me comove seu esforço para me comer. Desculpe, não quero ser sua sobremesa.
Conto-lhe meus problemas. Digo-lhe da minha desilusão. É como se não importasse nenhuma palavra. Ele quer persistir em me elogiar. Eu quero dizer a ele que eu também peido.
E que tenho meus fedores. Meus horrores. Meus medos.
Quero lhe dizer que já sei como essa história começa e também como termina. Não quero medir mais suas intenções. Suas disposições.
Me sinto um pedaço cru de carne, com as unhas bem pintadas. Não. Eu não vou ser sua sobremesa. Nem por todos os elogios que ele faz para cobrir a minha cama, como se fossem lençóis de seda. Eu não vou ser a sua sobremesa.
Ele insiste em mais uma garrafa de vinho. Mas a minha indiferença é forte até mesmo ao torpor. Por favor, injete álcool nas minhas veias, hoje eu tenho todas as defesas do mundo. Eu já aprendi a enxergar sobre o escuro.
Ele insiste em pegar a minha mão. Lhe cedo apenas uma. A outra ainda permanece segurando a cabeça, o corpo e o peso.
Tudo pesa.
Ele pede a conta.
Tudo pesa.
Ele paga a conta.
Tudo pesa.
Ele sai do restaurante com alguma esperança de que tenha me impressionado.
Mas tudo pesa. Sempre pesa.
Me dá um beijo demorado na bochecha. Eu limpo com rapidez e desgosto.
É. Eu cansei de ser a sobremesa. Eu permaneço com meu silêncio amargando, no fundo do copo de vinho, sobre a mesa.

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