DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

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segunda-feira, 15 de março de 2010

Uma história de tirar o fôlego!

Foi à alguns anos . Fomos convidados para um casamento diferente. Árabe. Amigos de papai iam casar a filha numa cerimônia típica. Em virtude do trabalho de meu pai, moramos em muitos lugares. Num deles, convivemos com alguns árabes, entre eles, esses que iam casar a filha, na cidade que agora residíamos. Foi com grande prazer que nos trouxeram o convite do casamento . Nos contaram que não haveriam muitos convidados fora da colônia deles, mas que faziam questão da nossa presença. Fícamos animadíssimos. Quer dizer, eu e minha mãe. Papai ficou em dúvida, nunca gostara de grandes cerimônias. Quer dizer, gostava sim. O que estava pegando é que seríamos quase que os únicos convidados de fora, e além de que, eles não serviam bebidas alcóolicas. _ Como pode isso?... uma festa sem um bom vinho? Era o argumento do meu pai, que no entanto, se rendeu a vontade das suas meninas. E fomos. E ficamos pasmos. Parecia mesmo que adentrávamos em um conto das mil e uma noites. Dentro do salão de festas, armaram imensas tendas com tecidos de mil cores, e bolas iluminadas e muitas, muitas flores. Haviam mesas de doces, babilônicas e tentadoras pelos quatro cantos do salão, e uma música entorpecedora e quente que nos hipnotizava. Os convidados pareciam personagens, falando uma língua estranha, que cantava alegria aos nossos ouvidos. A cerimônia foi linda. O pai da noiva trazia a noiva até o centro do salão, entoando canções e poesias de boa sorte e amor que não deveria acabar nunca. O mesmo fazia o pai do noivo. No centro do salão, casaram-se sob uma chuva de pétalas de rosas que não cessava. Uma atmosfera de amor muito especial envolvia a todos. Ninguém chorava de emoção, apenas sorriam. Quando oficializou-se o casamento, abriram-se cortinas imensas que revelaram uma banda de música típica, vinda especialmente das Arábias para alegrar a festa. O jantar foi um banquete, e papai até esquecera de resmungar por não ter seu vinho santo à disposição. Após os doces, iniciou-se o que parecia ser um baile. Muito diferente. As mulheres, que ricamente vestidas e enfeitadas estavam, permaneciam nas mesas, e para o centro do salão iam os homems, que formavam um grande caracol de homens lindos, vibrantes, que dançavam e gritavam votos de felicidades aos noivos. O porque as mulheres não dançavam, eu não sei, mas não pareciam infelizes por verem seus homens exibindo-se com graça. Dona Nagiba, a amiga de meus pais veio até a nossa mesa em certa hora, e também seus filhos e tantas pessoas, e contou-nos que as mulheres dessa raça, em dias de festa, vestiam todos os seus ouros. Na visão deles, quanto mais jóias estivessem exibindo, mais sinal de estima mostravam ter de seus entes queridos por elas. Excentricidades apaixonantes. Apaixonantes momentos. Foi nessa hora que eu notei. Que eu o notei. Um moço lindo. Perdi os sentidos quase, quando vi aquele moço de beleza inacreditável me olhando. E sorrindo! Posso lembrar de cada detalhe dele naquele dia. Lindo, de tez morena, cabelos e olhos escuríssimos, uma barba magnifcamente bem feita, magro e elegante no seu terno escuro, que para mim parecia claro. Algo muito conhecido no apertar de seus olhos me chamava a olhar para ele também. Não pude deixar de notar ainda, que não era só ele que olhava para mim, mas, discretamente, também as pessoas da mesa dele estavam olhando para nós. E falavam. E olhavam. E falavam. Puxei minha mãe, e comentei, e ela sorriu para eles. _ Ficou doida mãe?... mas ela sempre ri de tudo e para todos, a doida. Estava nervosa, acho que nunca tinha sido observada por olhos tão insistentes, envolventes e determinados. Ele sorria com os olhos, assim, um pouco apertados, o que me deixava até tonta. Claro! Em dado momento, peguei minha mãe e a arrastei para o banheiro, precisava falar, perguntar o que eu devia fazer. Entramos no toilette, que estava todo enfeitado como uma tenda também, quando notamos a entrada de duas mulheres. Eram pessoas da mesa dele. Fiquei gelada e entrei no reservado. A belíssima senhora puxou então conversa com mamãe, dizendo sem mais rodeios que seu filho Kasan (ele) havia gostado muito de mim, e que a família estava interessada em tratar um possível casamento. Isso mesmo, casamento. Mamãe quase caiu para trás. Saí do reservado e a outra mulher, no caso, irmã dele, se aproximou de mim, e cochichou bem baixinho que seu irmão, Kasan, estava naquele momento falando com papai, junto com o pai deles. Nessa hora ouvimos a linda senhora falar um sonoro _ óh, não!!! mas que pena. Pediu desculpas à mamãe e saiu com sua filha. Minha mãe nem precisou me falar do que se tratava. Eles pensaram que éramos da mesma colônia que eles, de alguma outra cidade, por isso, estranhos. Não nos imaginaram ocidentais. E a casa caiu. Quando voltamos ao salão, papai já nos agurdava, muito ofendido, pronto para irmos embora. A família do moço lindo já havia se retirado, como num passe de mágica. Ficamos, os três, desolados com algo tão descabido aos nossos olhos. Dona Nagiba e sua família nos acompanharam até o carro, entre muitos pedidos de desculpas e explicações. Mamãe, grande alcoviteira, ainda tentou arrancar da amiga algum dado do moço, acho que ela fantasiou mais que eu naquela hora, mas tudo que conseguiu saber foi que, se nós fôssemos árabes, naquele momento, poderia-se estar acertando um noivado. Ela sentiu muitíssimo, nossa amiga Nagiba . Voltei para casa e sonhei com toda aquela extravagância. E com aquele moço tão lindo que quase se tornara meu noivo, não fossem nossas diferenças. Culturais. E religiosas. E raciais. _ Oras! , e a paixão que vimos nos olhos um do outro, o que a gente fazia com aquilo? Passaram-se dois dias quando chegou em casa, um pequeno ramalhete de delicadas flores lilases. Junto, um cartão delicado que dizia em elegantes linhas traçadas: "Se eu pudesse, tomaria você para mim. Perdoe-me! Nunca esquecerei você." O impacto daquelas palavras ressoa até hoje em meus intervalos de cotidiano. Isso aconteceu à alguns anos, que eu supus ter colocado fim a qualquer ligação entre nós . Dias desses, no entanto, comentei aqui, recebi flores. Um pequeno ramalhete de flores lilases, com um cartão que dizia apenas: " Para mim, você é única". Pois é, as mesmas flores, a mesma caligrafia elegante, o mesmo perfume abstrato de Kasan. Não estava assinado, assim como o outro não estava, mas existem coisas que a gente sabe. E só. Nunca mais nos vimos, não sei nada de nada dele. Oque ficou entre nós foi essa eterna impossibilidade romântica. Não entendo porque ele deu sinal, mas suas flores fizeram-me sentir dentro de um conto. Um conto de amor impossível, e talvez por isso, inabalável. Acho bonita essa história, por isso resolvi contá-la aqui. Quem sabe um dia, conto algo mais.

Be Lins

http://umaestrelanamao.blogspot.com/

2 comentários:

  1. Olá, Adriana.

    Sabe que é bem interessante ver coisas que escrevi a algum tempo, postados aqui. Leio e me surpreendo, engraçado isso.
    Você perguntou de onde sou, sou de Curitiba.

    Sobre esse post, essa historia mágica, é daquelas que só por ter vivido um instante dela, já valeu a pena. Sobre ele me achar, é o mais fácil. Difícil é eu achar ele.
    Somos impossíveis na realidade, mas ligados infinitamente no nosso paralelo particular.

    Beijo, Adriana,
    e obrigada pela consideração que você tem como os meus textos.


    *

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  2. Olá, Be!
    Nossa... Obrigadíssima pelo retorno!
    Adoro o seu blog e tudo o que você escreve...
    Adooorei essa história mágica!
    Linda!!!
    Grande beijo,
    Adriana

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