DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

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domingo, 18 de julho de 2010

IDENTIDADE























Quem sou eu sem o meu rosto? Quem é ele sem o rosto dele? Nos reconheceríamos sem a referência física de quem somos com aquela cara, aquele corpo, aquelas características que muitos dizem não ser o que somos de fato? Somos o que somos por dentro. Somos o que somos por fora. A conexão disso, nos totaliza. Mas e o rosto? Os olhos. O portal da indizível luminosidade de loucura que nos faz únicos. Somos o que somos lá dentro. Mas precisamos do real. Do palpável. A dificuldade da conexão humana passa por isso, não? Nos vemos, nossos exteriores, tão incríveis, bilhões e bilhões de seres com sua própria cara, digital e corpo único. Significativo. Não desprezível de consideração. Tudo que transmitimos aos outros passa pelo rosto, pelos gestos, pela presença. O todo a mais, é pura fé. Acreditar na existência ainda mais bela e superior de cada gente além de seus corpos, é crer. Como crer em Deus. Abstrato. Enigmático. Intransponível. Nossos corpos são portais de universos inteiros. Talvez ainda mais belos que todas as galáxias e estrelas juntas. Como sondar? Como se convencer que isso pode ser real? Ainda que se tenha uma intimidade bem próxima, o Outro, ainda assim será, um mistério. Alguma transparência acontece quando ultrapassa-se a barreira dos controles, do padrão, do apreciável, mas no geral, ninguém quer se ver muito além de corpo e membros. Ah! beleza oculta. Quanta beleza nos privamos de ver... é como olhar o céu, apenas pra ver se está chovendo. É tão mais que isso. As coisas que não se vêem a olho nu. Ir a janela apenas para ver se ainda chove. Mas tem todas aquelas pessoas passando. São mais que corpos, ou esboços de gente a passar. São estrelas. Fazem parte desse céu. Falta-me essa surpresa diária, confesso. Reclamo do vazio, por mergulhar no raso. Gente é tão mais dentro. O desejo de pertencer. Fazer parte. Talvez resida aí a razão para as histórias de amor serem tão marcantes. A gente mergulha um pouco mais. Vê além, e gosta do que vê. Um abre o portal para o outro, escancaram-se as janelas do ser. Amar é um troço muito delicado. Vai mil passos a mais do que beijos e corpos ardendo. Quer se engolir o outro. Todo. A gente quer tocar lá dentro. Quando penso nisso, sinto como se fosse duas. A que sou fisicamente, e a que sou lá dentro do espelho, aquela que tanto me constrange quando a olho. Sou estranha a mim mesma, como não ser aos meus semelhantes? Como ser amada, sendo tão desconhecida até pra mim?... Um amigo disse um dia: Descomplique-se! Mas, como se faz isso, se pensar é tão inevitável?... Falta-me leveza. E uma dose imensa de um certo alguém que não me vê, ou me vê demais, e que se acerta tão bem comigo dos olhos pra fora, mas que tão inconciliáveis somos, dos olhos pra dentro... Quero algúem pra segurar a minha mão. Não, não essa que escreve. Essa aqui, que abana desvairadamente, janela d'alma a fora. Eu, por dentro, A LOUCA.

Be Lins

http://umaestrelanamao.blogspot.com/


Arte: Nick Gentry

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