DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

http://www.doepalavras.com.br/

sexta-feira, 27 de agosto de 2010



Alan Pauls e Rodrigo Fresán, além de escritores argentinos e, por um tempo, vizinhos, também tinham em comum uma grande amizade com Roberto Bolaño.

2666

O romance que vem do futuro

Roberto Bolaño disse certa vez: “Há livros que inspiram medo. Medo de verdade. Mais que livros, parecem bombas-relógio ou animais falsamente empalhados dispostos a pular no seu pescoço se você se descuidar”. A categoria — livros temíveis — parece pensada à medida de 2666. Como todas as grandes ficções de Bolaño — penso em Estrela distante, por exemplo —, 2666 dá medo. Dá medo e faz rir ao mesmo tempo. Lê-lo é entrar num tremor, numa convulsão física. Não é um livro que se dirige ao leitor; não pretende falar com ele nem enfeitiçá-lo. Ele quer tocá-lo, marcá-lo, atravessá-lo com o vento gelado da morte e a brisa ardente da gargalhada.
É o estranho poder que têm os livros que decifraram o mistério do limite da literatura: como fazer com que a literatura saia de si, de seus eixos, e alcance um além. O que nos leva à questão central de 2666: a questão do póstumo. Por que dizemos que 2666 é o romance póstumo de Roberto Bolaño? Só porque apareceu depois da morte do autor? Não creio. Parece-me que 2666 era póstumo antes, muito ante de Bolaño morrer. É o que acontece com as grandes obras post-mortemO homem sem qualidades de Musil, Salò de Pasolini, Querelle de Fassbinder. Não são obras de recapitulação, de balanço, nem tampouco summas. São obras que inventam mundos e formas que só alguém que já não é deste mundo nem se reconhece nessas formas pode inventar. Obras afetadas, doentes, inconsoláveis, que não se encaixam de modo nenhum no mundo em que aparecem. Obras-zumbi a que sempre falta algo, ou que sempre têm algo a mais, um extra, um suplemento que as impede de se adaptar.
Daí a unidade estranha, ao mesmo tempo poderosa e frágil, monumental e desajustada, de 2666. Daí o tom que perpassa todo o livro: essa modulação distante, como que velada, ao mesmo tempo fúnebre e feliz, próxima e impossível. O que nos leva a este título misterioso, 2666. De que se trata? Uma chave numerológica? Um toque de milenarismo satânico? Talvez. Gosto de pensar que se trata de um ano e, em certo sentido, de uma singular operação de ficção científica. Uma ficção científica à Philip Dick, mas também à Edgar Allan Poe: essa ficção científica na qual os mortos falam. Porque 2666 é o ano do romance: o ano em que o romance foi escrito, o ano a partir do qual ele chega a nós. Nesse sentido, 2666 não é um romance sobre o futuro. É um romance que vem do futuro, desse além em que a literatura parece nascer de novo.

Alan Pauls nasceu em Buenos Aires em 1959. Três de seus livros foram lançados no Brasil, entre eles O passado (Cosac Naify), adaptado para o cinema por Hector Babenco. Ele e Roberto Bolaño passaram a se corresponder devido à admiração mútua pelo trabalho do outro. Ele participa da coletânea Essa história está diferente, sobre músicas de Chico Buarque, com um conto baseado em “Ela faz cinema”.

* * * * *


Anotações para uma releitura de 2666

1.
Podem-se escrever muitas, muitíssimas coisas sobre a leitura de 2666 de Roberto Bolaño. Escrevê-las no calor do momento, em chamas, enquanto se lê ou minutos depois de se ter superado a última página.
Mas o que escrever tempos depois, com esse livro de livros dando voltas pelo mundo, aparecendo aqui e ali, em diferentes idiomas mas com sua linguagem única que lembra um pouco o universal e cósmico som marca Giorgy Ligeti, sobre esse monolito aziago que se manifestava, aziago, sabendo tudo mas sem nos dar explicações.
Assim, agora, vou à minha biblioteca e é tão fácil situar 2666 entre tantos livros. Lá está: largo, contundente, poderoso. Ocupando muito espaço, o espaço que merece. Torno a abri-lo e torno a ler: “A primeira vez que Jean-Claude Pelletier leu Benno von Archimboldi foi aos dezenove anos de idade, no Natal de 1980, em Paris, onde fazia estudos universitários de literatura alemã”. E, claro, em 2666 todos — de um modo ou de outro — passam o tempo lendo, relendo, recordando para trás e para a frente, compreendendo no ato a ideia de que “a obra é memória”.
2.
E me lembro e reúno aqui algumas coisas que Roberto Bolaño disse e que — tendo morrido antes da publicação de 2666 — podem funcionar um pouco como uma espécie de entrevista fantasma. Como se tivesse dito antes o que de algum modo pressentia que não poderia dizer depois. A lenda verdadeira afirma que Bolaño escreveu 2666 tentando ganhar uma corrida com a morte, chegar ao fim do livro antes de chegar ao fim da vida. Não foi possível, mas as linhas estão claras e o rumo firme, e algumas coisas que Bolaño disse sobre o ofício de escrever são aplicáveis, de certa forma, ao trabalho de composição deste romance: “A literatura se parece muito com a luta dos samurais, mas um samurai não luta contra outro samurai: luta contra um monstro. Geralmente sabe, ademais, que vai ser derrotado. Ter coragem, sabendo previamente que você vai ser derrotado, e ir lutar: isso é a literatura”. “À literatura nunca se chega por acaso. Nunca, nunca. Fique bem claro. É, digamos, o destino, sim? Um destino obscuro, uma série de circunstâncias que fazem você escolher. E você sempre soube que esse era o seu caminho.” “A viagem da literatura, como a de Ulisses, não tem retorno.” “O brutal sempre é a morte. Agora e há anos e daqui a anos: o brutal sempre é a morte.”
Quer dizer: samurai + destino + viagem + não retorno + morte remetem ao bushido ou “caminho do guerreiro” (a arte de viver e combater, como se você já estivesse morto, dos grandes espadachins japoneses, a habilidade de olhar para trás, para o presente, como se se fizesse isso já do outro lado) e a uma atitude paradoxalmente hipervital. Ao núcleo criativo, de cujo centro se desprende a ficção e a não ficção de Bolaño iluminada e escurecida, sempre, pela sombra da doença e da morte que podia chegar — e chegou, punhal erguido — na virada de página.
3.
A obra de Roberto Bolaño — chame-se o Santo Gral de Cesárea Tinajero em Os detetives selvagens, ou de Benno von Archimboldi em 2666, ou de Wieder/Ruiz-Tagle em Estrela distante — está sempre marcada pela busca de “seres-livros”. Pessoas que não podem parar de escrever e de ler.
E me ocorre que a leitura ou a releitura de 2666 é consequência da escrita de 2666. Explico-me: a escrita noturna e lançada ao abismo de 2666 — Bolaño apostando uma corrida contra tudo, noite após noite, para alcançar a última página de seu romance antes do último amanhecer de sua vida — age sobre o leitor causando um efeito similar. Não importa a hora que seja; quando se lê ou relê 2666 a gente não demora a se entregar a uma espécie de transe entre sonâmbulo e insone. Em 2666, a prosa de Bolaño cativa mais do que em qualquer de seus outros livros porque aqui se trata de conseguir uma espécie de summa artística, plenamente harmônica e ao mesmo tempo disfuncional onde — por meio de epifanias de longa distância suspensas no espaço ou abruptas acelerações no tempo emolduradas no formato de romance aberto, de romance exterior e interior ao mesmo tempo —, o que se persegue e se alcança não é outra coisa senão uma teoria do mundo, de todo o mundo.
4.
Numa das partes de 2666, o chileno errante Amalfitano recebe a visita de uma voz noturna e espectral que lhe fala de uma coisa que Amalfitano não entende e que a voz define como “história decomposta” ou “história desmontada e montada de novo”. E que — Amalfitano compreende embora não compreenda — é o que acontece quando “a história montada de novo se transformava em outra coisa, num comentário à margem, numa nota sisuda, numa gargalhada que demorava a se apagar e pulava de uma pedra de andesina a uma de riolita, depois a uma de tufo, e desse conjunto de pedras pré-históricas surgia uma espécie de espelho, o espelho americano da riqueza e da pobreza, e das contínuas metamorfoses inúteis, o espelho que navega e cujas velas são a dor”. Essa voz que não está definindo outra coisa senão 2666 bem poderia ser — assim fazem pensar várias anotações a que alude o crítico e inventariante literário Ignacio Echeverría na nota que encerra o romance — a de Arturo Belano, protagonista de Os detetives selvagens e suposto alter ego de Bolaño. Em certa conversa, como de passagem, Bolaño se confessou tentado a que Belano acabasse como uma espécie de eternauta viajando através do tempo e transmitindo do futuro. E digo suposto alter ego porque me parece que, com Belano, Bolaño conseguiu algo muito mais interessante que o habitual disfarce que um escritor utiliza para se transformar em personagem. Ocorre-me que, talvez, Belano seria igual a Bolaño se Bolaño houvesse optado por ser Belano e não por ser o Bolaño que acabou escrevendo Belano. Uma coisa assim. Está claro? Sim? Creio que não. Bom, sinto muito.
5.
Também nos é dito em 2666 que “Ler é como pensar, como rezar, como conversar com um amigo, como expor suas ideias, como ouvir as ideias dos outros, como ouvir música (sim, sim), como contemplar uma paisagem, como dar um passeio pela praia”. E aqui estão — são estas — as possíveis instruções para afundar sem se afogar neste último romance de Bolaño. Um mega-romance armado e desarmado. Uma praia onde passeiam outros cinco romances — A parte dos críticos (um vaudeville acadêmico), A parte de Amalfitano (uma história de fantasmas onde todos os vivos parecem mortos), A parte de Fate (o trânsito existencialista de um jornalista esportivo), A parte dos crimes (o recenseamento tão clínico quanto lírico de centenas de cadáveres de mulheres assassinadas), A parte de Archimboldi (a crônica da deformação do soldado Hans Reitner para que se forme o escritor Benno von Archimboldi) — que se relacionam não como caixas chinesas ou bonecas russas mas que parecem se fundir umas com as outras propondo uma espécie de história alternativa do século XX. E que — como seu irmão siamês Os detetives selvagens, mas com diferente polaridade — é outra crônica dos laços de sangue, suor e lágrimas que unem e separam a Europa da América. Em certo ponto lemos que “a história, que é uma puta simples, não tem momentos determinantes mas é uma proliferação de instantes, de brevidades que competem entre si em monstruosidade” — e, sim, 2666 também trata disso.
E se Os detetives selvagens podia ser lido como uma viagem de ida — como a trajetória em mil direções partindo desse ponto concentrado de energia que era uma visão e uma revisão da revolução latino-americana passada pelo filtro de uma ars poetica em que o único credo possível era o verso —, então 2666 se propõe a ser o yang daquele yin: parte de múltiplas cidades da Europa em busca da revelação de um mistério mexicano, vivendo e morrendo e sendo assassinado numa cidade de fronteira com nome de santa. E o que aqui se discute não é a arte da poesia neomundista, realista e visceral, mas a arte do romance como um dos traços distintivos e nobres do velho mundo. Assim, em Os detetives selvagens ia-se atrás de uma pista inframundista da poeta Cesárea Tinajero, enquanto em2666 o que se investiga é a prosa europeia de Benno von Archimboldi. Um e outro terminam num deserto. Uma dessas paisagens amplas — praias, céus, oceanos, cordilheiras — que Bolaño sempre escreve em cinemascope e super-8 ao mesmo tempo. O melhor de ambos os mundos.
6.
Assim, surgem homens também empenhados na busca, no achado e na escrita do que o chileno define aqui como “centro oculto” ou “o segredo do mundo” enquanto — como o miniaturista Borges — vai construindo e citando escritores e obras dentro de sua própria obra de escritor. Outra vez, o melhor de ambos os mundos: a amplitude da saga, a concentração da anedota. 2666 como num colossal motor romanesco de movimento perpétuo alimentado com o combustível de incontáveis relatos. Um inesgotável mural, metade Bosch metade Diego Rivera: tudo e todos se movem e vão e veem e se cruzam na terra e no ar aparentados por características artísticas (como a obsessão quase patológica do escritor alemão Benno von Archimboldi); monstruosas (a montanha crescente de cadáveres de mulheres assassinadas na cidade mexicana de Santa Teresa, transparente máscara de Ciudad Juárez, cujo maior lixão clandestino, me parece pertinente destacar, se chama “El Chile”, que é uma pimenta picante mas também um país); ou culinárias (múltiplas variações na hora de preparar chuletas de porco).
Tal como ocorreu com Os detetives selvagens — o outro grande romance coral e polifônico e sísmico de Bolaño —, toda tentativa de sinopse é tão inútil quanto, finalmente, desnecessária. Porque a maravilha dos detalhes microscópicos de 2666 só pode e deve ser apreciada de modo macro; deixando-se levar pela torrente de páginas e situações e personagens em que o leitor se perde primeiro, para depois, logo em seguida, se encontrar.
Pensar em 2666 como naquela cena final de Cidadão Kane: um longo e elevado travelling sobre as posses acumuladas por um magnata, nas entranhas de seu palácio, ao longo de toda uma vida. Só que aqui não tem Rosebud queimando no fim do percurso e explicando tudo.
O centro oculto e o segredo do mundo permanecem invisíveis e invioláveis, porque os romances e as vidas nunca gozaram da ordem imposta pelos primeiros estudos e pelos últimos magnatas na hora de encerrar uma história.

Rodrigo Fresán nasceu em Buenos Aires em 1963 e vive atualmente em Barcelona. Escritor e jornalista, é mencionado por Roberto Bolaño em diversas ocasiões como um de seus melhores amigos. Seu livro Jardins de Kensington foi lançado no Brasil pela editora Conrad, e ele participa da coletânea Essa história está diferente, sobre músicas de Chico Buarque, com um conto baseado em “Outros sonhos”.

Nenhum comentário:

Postar um comentário