DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

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terça-feira, 24 de agosto de 2010

João-Bobo


(Tenho o passo marcado/ O rumo traçado sem discussão/ Tenho um encontro marcado com a solidão/ Tenho um pressa danada/ Não moro do lado/Não chamo João/ Não gosto nem digo que não/ É inútil (...)

Vou correndo, vou-me embora/ Faço um bota-fora/ Pega um lenço agita e chora/ Cumpre o seu dever/ Bota força nessa coisas/ Que se a coisa pára/ A gente fica cara a cara/ cara acara cara a cara/ Com o que não quer ver – Chico Buarque “Cara a Cara”)

Ainda muito pequena, ela não entendia porque razão aquilo poderia ser chamado de brinquedo. Com um sorriso plástico, inflado, o João-Bobo se debatia de um lado para o outro, sem protestar. Por isso a menina nunca soube se no final das contas ele era feito para bater ou para apanhar. Fato é, que mesmo quando caía, o João-Bobo logo se levantava. Inútil. Indo e vindo de um lado para o outro, levantando e caindo sobre o mesmo eixo. Como se levitasse entre a persistência e a idiotice. Como se persistisse entre a teimosia e o cansaço.
Que graça tinha em ver o João-Bobo cair? Ela se perguntava. Que brincadeira mais estúpida podia ser aquela? Mas quando tinha cinco anos o João-Bobo furou, e a menina não chorou para sua mãe comprar outro, pois já era grande.
Sabia que é possível chorar ser deixar cair lágrimas? Não é fácil, mas é treino. Você desvia o olhar para um ponto fixo qualquer e se distraí. Se os olhos insistem em marejar, você apenas fecha as pálpebras lentamente, até anestesiar. Se a garganta fechar, você junta um pouco de saliva e engole rápido. Não é fácil, mas é treino.
Ela aprendeu a fazer isso, depois de um dia quando já mulher, ficou envergonhada pelas pessoas que a viam chorar no trem. Às vezes ela chorava, quando tudo por dentro indignava. Às vezes ela chorava, quando as perguntas não bastavam. Às vezes ela chorava a certeza de ser sempre torta, de ser sempre incorreta, de ser sempre inadequada. Inadequada era uma palavra que se adequava bem a ela. Mas era preciso cair e levantar, todos os dias no mesmo círculo. Com o mesmo sorriso plástico, inútil. Se debatendo de um lado para o outro.
Se ao menos pudesse, a menina engoliria toda a arrogância que lhe embrulhava. Se pudesse, a menina levantaria e faria tudo sem levantar. Se pudesse, se soubesse, ao menos o caminho. Os trilhos do trem reluziam, um ponto fixo, sem chorar.
Aos cinco anos. Aos cinco anos o João-Bobo furou e ela aprendeu a chorar sem lágrimas.
Quem disse que a gente não levanta? Quem disse que a gente sabe qual a diferença entre a idiotice e a persistência? Quem disse que os caminhos não estão sobre o mesmo eixo?
Que brincadeira mais estúpida pode ser esta que a gente insiste em viver?

Helga

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