DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

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terça-feira, 3 de agosto de 2010

SILÊNCIOS


Da série “Fotografias encontradas no criado-mudo”
André Moncaio

Silêncios.
E o silêncio é som.
E os silêncios fazem parte da nossa música.
Essa música que tocamos juntos quando estamos juntos.
“Às vezes fico pensando que tudo é pensado. E o pensamento pensa quando quiser”. Sentia-se dizendo tudo para ela e ela para ele. E silenciosamente se queriam. Silenciosamente se entendiam as pontas dos dedos. Mudos e falantes. Como aquele criado parideiro. Aquele criado-mudo que deu de fazer renascer todas as fotografias que iriam tirar. E estas já estavam por toda a casa. Ah sim, coladas pelas paredes. Encontraram-se. Descobriam seus lugares. Mas não se organizavam de modo algum. Colocaram-se ao acaso. Sem nenhuma forma de numeração, catalogação ou algo que minimamente permitisse um entendimento, uma narrativa, uma seqüência de histórias. Mas essa mania de esperar. E exigir das fotografias que se organizassem sozinhas. “Só você mesmo!”. Passou os olhos pela quina da parede do corredor com a sala e viu. Ouviam sons juntos. E viram cores. Variações. Da luz. Sentiram fome juntos. Querendo estar ainda mais juntos. E justos. Seu retrato sempre o faria abrir um sorriso. Ao ver seu sorriso enquadrado. Resolveu fazer o que sentisse. Sem pensar muito no que fosse pensar. E temeu. Mas tranqüilizou. A chuva veio novamente. Como da primeira vez. “Eu vou vestir o mar” ouviu sua voz dizer no myspace. E me trouxe novas fotografias. Novas gotas. Respirei. Vestir o mar. Como queres. O quereres. Vestir o mar por inteira. Ouvir o mar. O silêncio do mar. Vagar como ele. Ondulando como estes cabelos. Dias. Em silêncio. Sem ouvir nada dela. Nenhuma fotografia. Nem que velada fosse. Nada. Fora de foco. Subexposta. Estourada. Desenquadrada. Nem isso. Silêncio. O silêncio da fotografia muda.
“O tempo é nosso. Não o silenciemos. Vamos ouvi-lo” disse antes de sair. Caminhou até o portão. A calçada molhada. Fim de chuva. Sorriu do lado de dentro. Um aceno. Em silêncio. Lembrou-se da primeira vez. E do tempo. E de como pensavam-se. A primeira vez. Flor no cabelo. Girassol. O que ela disse. Paciência. E o silêncio. Dizendo tanto. E os olhos sinceros. Ainda abertos. Brilhavam como de hábito. Combinando com o sorriso. O mesmo. Silenciosamente se queriam. Entendeu finalmente. Em silêncio. E sorriu.

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