DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

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quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O conto do abismo


(“Imagination is crazy, your whole perspective gets hazy/ Starts you asking a daisy "What to do, what to do?"/ Have you ever felt a gentle touch and then a kiss/And then and then, find it's only your imagination again?/ Oh, well/ Imagination is silly, you go around willy-nilly/ For example I go around wanting you/ And yet I can't imagine that you want me, too” – Ella Fitzgerald – Imagination)


Em uma tarde fria e cinza, dessas que as nuvens envolvem todo o céu, fazendo com que pareça mais próximo, ele também me envolve, colocando sobre os meus olhos uma venda. Há um certo cuidado no modo como me amarra. Há um certo carinho.
Quando tem a certeza de que não vejo mais nada, ele pede uma das minhas mãos, para que então, me conduza em passos confusos, por um caminho longo e estreito. Um pouco nervosa eu chego a rir. A forma como entrelaça seus dedos entre os meus, me provocam cócegas. Enquanto me leva, consigo respirar todas as suas palavras. É como se fosse oxigênio para o peixe fora d’água que agoniza dentro de mim, mas que já me acostumei a ser. Em pouco tempo ele se torna adorável e incrivelmente familiar. É tão fácil enxergar sobre o escuro. Suas palavras acariciam os cantos mais escusos de minha orelha e escorregam doces por dentro. É leve sua presença. Seus passos disformes compõem quase uma dança. Gosto do caminho. Gosto do carinho.
De repente ele pára. O som de todos os passos é substituído pelo vento, que sopra frio sobre o meu rosto. Vagarosamente ele me tira a venda dos olhos, pedindo para que eu os mantenha fechados. Leve, ele se encosta sobre os meus ombros e sussurra vagarosamente: sou casado.
Abro os olhos. Estou na frente de um abismo. Vejo ele sumir diante de uma imensidão escura onde devem estar todos os desejos. Sinto a febre suicida de quem não teme mais se jogar. Mas covardia maior seria a minha?
Às vezes tenho vontade de pedir às pessoas que me deixem imaginá-las por mais tempo.

Helga

2 comentários:

  1. bem bonito...ahh e fitzgerald é o máximo..

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  2. É sim!
    A Helga sempre escreve coisas incríveis...
    Bjs e tudo de bom.

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