DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

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sexta-feira, 26 de novembro de 2010

OS OLHOS NUS - TRECHOS DO LIVRO 'O RISO DE DEUS'


“... Aos poucos fui descobrindo que a gente se encontra com os outros para além das palavras: que há encantamentos que nascem dos gestos, que é preciso pô-los em comum e que isso pode despertar vibrações desconhecidas que a sexualidade apenas revela. É uma pena que quase sempre se fique por aí.

... O desejo é um atifício da natureza para nos ligar aos outros enquanto não descobrimos que é preciso aproximarmo-nos deles com uma outra e maior entrega do que somos e do que temos. Acho que pusemos em cima do corpo coisas de mais que só atrapalham e encobrem o sentido profundo do que poderia ser essa aventura.

... Ligamo-nos e desligamo-nos dos outros também pelo corpo mas só na nossa infância podemos viver isso em plena inocência. Naquele tempo, as nossas mães podiam ser feias, as nossas avós podiam ser velhas, as nossas tias podiam ter bigodes e medonhos sinais no nariz, as nossas criadas cheiravam ao suor de muitos dias, mas nada disso nos fazia confusão e o calor de todos aqueles corpos era esse abençoado gesto da carne a apertar os que se amam. Quando nos separámos deles perdemos essa comunhão natural com o corpo dos outros. Depois o instinto começou a fazer suas imposições...

...Escolhemos, mas talvez tenham que ser outros os critérios da nossa escolha. Repelimos e recusamos sem pensar como devem ser feitas recusas sem nos andarmos a magoar. O desejo irrompe por aqueles canais antigos, por isso os nossos gestos não conhecerão as riquezas que estavam à nossa espera. Deitámos o corpo à solta, como se ele só assim pudesse responder ao desejo, sem nos lembrarmos de nos perguntar se é só isso o que o próprio desejo quer. Por isso a cama permanece como o fantasma que domina o encontro do homem com a mulher.

- Já amaste uma mulher feia?
- Pelos critérios do mundo, já. Pelos meus critérios posso dizer-te que são bem bonitas muitas mulheres que a gente acha feias. Mas são coisas que demoram a descobrir. Até nisso vocês foram à frente há muito tempo que soberam gostar de homens feios...

...Critérios das nossas escolhas que nos leva a pequenez daquilo que nos determina para nos aproximar dos outros.

...Eu acho que é por causa do critério do desejo que tem que haver contratos, casamentos, convenções e instituições. Porque recusamos a medida interior de respeito e de verdade que nos devia ligar aos outros é que têm que vir as fórmulas, as regras, as leis e, por isso tudo, as sanções.

...A princípio, a gente julga que não tem força para vencer a tentação da comodidade que nos dá o viver no que está estabelecido, mas a verdade é que ninguém anda feliz e é preciso inventar a maneira de não nos deixarmos destruir na confusão das mudanças.

...A questão está em a gente se perguntar se aquilo que andamos a viver responde ou não à chamada do que pressentimos dentro de nós.

...O sistema tem que andar e até há pessoas que nele se sentem bem. Tenho é pena daqueles que trocam a riqueza do que têm por dentro em inquietação e risco pela comodidade que ele lhes dá.

...É muito incómodo viver em tempo de mudança.

...Os modelos em que vivemos não servem mas não sabemos ainda onde vamos morar. Ficámos presos nas ruínas das casas antigas e não conseguimos libertar-nos delas. Às vezes encontro pessoas que eu julgava capazes de olhar para si e para o mundo doutra maneira, que querem reivindicar o seu espaço e a sua vida e a partir daí pudéssemos inventar outro amor mas, na prática, continuamos bloqueados pelos escombros das velhas moradas.

...É preciso não confundir o problema do amor com o da nossa solidão porque o movimento do mundo nos faz estar cada vez mais sós e as pessoas não aprenderam ainda a estar consigo.

- Mas temos que aprender a estar sós?
- Acho que aquele que vive bem consigo é que pode depois amar e ser solidário, desinteressadamente. Nós confundimos solidão com carência e dependência. A solidariedade é gratuita.
- No meio de tudo isto, há o indecifrável mistério do corpo. O corpo põe-se a fazer perguntas à medida que a noite vem e, quando a gente lhe vai responder, repara que ele já não tem a nossa idade...

...Acho que tenho muitas compensações mas as coisas começam a ser menos fáceis: há uma força que nos chama para dentro de nós...

...O futuro vai ser feito da conciliação de todos os sonhos e só eles podem fecundar a vida e dar-lhe alguma significação.

...Aquilo que poderá ser é sempre melhor do que aquilo que é.”

Antonio Alçada Baptista

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