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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Pequena Gigantesca Miss Sunshine


[ou como pode um filme mexer tanto com você?]


Eu tenho uma família "desajustada". Para ser sincero, não sei exatamente se é possível chamar minha família de “família”. Não sei se ela se encaixa bem nesse termo. Aliás, aos olhos da maioria, eu não tenho “uma família”. Ouvi isso repetidas vezes e, normalmente, nas horas mais inadequadas ou das pessoas de que menos esperava. E isso dói.
Mas, sinceramente, prefiro minha família torta à maioria das “famílias” que existem por aí, com mamãe trabalhando no Tribunal e papai regando o jardim de calção no sábado à tarde. Tenho medo de famílias felizes de comercial de margarina. Minha família, torta, estranha, maluca, desajustada, é, à sua maneira, feliz. Feliz, inclusive (ou, dependendo do ponto de vista, principalmente), pelos momentos infelizes. Pelas ausências, pelas distâncias, pelos desencontros. E felicíssima pela eterna alegria do reencontro. Minha família não acredita em sucesso, fracasso, medo, vitórias nem em nada que cheire a naftalina. Minha família só acredita nos sonhos. E todos gostam do que são, vivendo cada um ao seu jeito e, estranhamente, todos de modo muito parecido. Estranha minha família. Que não se questiona. Que quase não se vê, espalhada por toda parte. Apenas se abraça, se beija, se toca, ri muito e canta e toca violão nas poucas madrugadas em que está reunida.
Mas e o que isso tem a ver com Little Miss Sunshine? Tudo.
Eu vi minha família na Kombi amarela. Eu me vi, cada hora sentado em um lugar diferente na Kombi amarela. Eu vi os meus e os nossos sonhos. Eu vi a buzina do velho Chevette de vó Luzia na buzina disparada da Kombi amarela. Eu vi meu avô Walter. Eu vi meu pai. Eu vi minha mãe. Vi Carol, Tiano, Rodrigo, Juliana, Lutiana, Érica, Marina. Eu vi Thiago. Vi June filha e June vó, e vi Rafaela. Vi Luana, Ieda, Ieva, Iana. Juca, Ana Paula. João Cláudio. Michele e Nicole. Vi Débora. Vi Cadú, Tuca, Rodrigão. Estavam todos lá. Naquela pequena e gigantesca Kombi amarela. E, engraçado: não é que nas horas mais inesperadas estavam, todos, empurrando a bendita Kombi amarela com a buzina gritadora, fazendo ela pegar no tranco e pulando, um a um, dentro dela pra seguir viagem?
E esse, esse é o segredo para se adorar a pequena e delicada obra-prima que é Pequena Miss Sunshine: é ver a Kombi amarela parar e parecer que vai dar tudo errado. É ver todos empurrando a Kombi, e todos pulando dentro dela, e todos seguindo em frente. É ver, naquela Kombi, naquele mundo que é a Kombi amarela de Little Miss Sunshine, os nossos. Cada um no seu mundo. Cada um com seus defeitos, seus erros e suas pequenas imbecilidades. Todos loosers aparentes. Mas, todos, na velha Kombi amarela com a buzina disparada.
Engano seu, cára-pálida: looser é o babaca que acredita em família perfeita e quatro sobrenomes na carteira de identidade. Família perfeita, família "ajustada" é, das duas, uma: hipocrisia coletiva ou cegueira voluntária.

POR ANDRÉ GONÇALVES

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