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quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

ABRAÇOS PARTIDOS









O protagonista, Mateo Blanco, cineasta e roteirista, sofre um acidente de automóvel que lhe rouba a visão e o amor da sua vida. Decide, então, que Mateo deveria morrer junto com sua amada Lena, interpretada por Penélope Cruz. O protagonista, assim, oblitera uma parte de si mesmo, passando a encarnar a persona que tinha escolhido no reino literário, o pseudônimo com o qual assinava seus livros: Harry Caine. Decidido a eliminar todos os vestígios do seu eu anterior, Harry usa a cegueira para apurar os outros sentidos, o que o torna mais fascinante e poliédrico. Catorze anos mais tarde - o momento em que o filme começa -, Mateo/Harry reconta sua história a Diego (seu filho, o que ele ignora). Trata-se de uma saga dilacerante de amor louco, fatalidade, ciúme e traição, na qual o escritor cego exuma e ressuscita a sua identidade "póstuma".



A revolução do filme consiste no fato de que, em Abraços Partidos, Almodóvar, um diretor fascinado por mulheres, cria o mais nobre personagem masculino de sua longa filmografia. Mateo/Harry conjuga a sabedoria trágica de um Lear com a ciência benevolente de um Próspero. E sepulta - com a sua dimensão dramática e humana - a lacuna de bons tipos masculinos na obra do diretor. Almodóvar nunca se aprofundou tanto na psicologia do homem quanto neste filme. Mostra isso não com falas, mas com imagens, como é de seu feitio. Exemplo? Em uma cama, um casal está completamente enrolado em um lençol - incluindo as cabeças. Sabemos que a mulher é Lena. Mas quem será o homem? O marido que ela despreza e trai? Ou o amante que ela admira? O cineasta insinua que, embora os homens - como as mulheres - sejam diferentes entre si, na paixão eles são indistinguíveis.


Por causa da narrativa de tom quase clássico, Abraços Partidos não foi uma unanimidade entre os analistas. Teria o incendiário degenerado em parnasiano, como resmungaram alguns críticos ávidos da provocação fácil? Pelo contrário: o mestre nunca foi tão cinematograficamente magistral. Não perdeu a eloquência no trato com as imagens, como na cena em que Mateo abraça o vídeo com a cena congelada do acidente, no momento em que beijava a amada. Como a colossal a escultura/móbile que orna a encruzilhada onde ocorre o desastre que mudou a vida de seu protagonista, assim é Almodóvar: camaleônico, metamórfico, proteico. Como o outro homem da Mancha, ele continua a sonhar acordado - pesadelos incluídos.



Trechos do artigo de Paulo Nogueira







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