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quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

FINAIS FORTES























A análise combinatória operada pelos produtores americanos, de tão esgotada, parece nos levar a isto aqui: uma comédia romântica em que o casal central é formado por Morgan Freeman e Paz Vega. Tão improvável, e depois de passados os 80 minutos de Um Astro em Minha Vida, tão indiscutivelmente bonito e justo. Brad Silberling começa seu filme parecendo querer experimentar um gênero muito específico do cinema, quase tão marcante como o do filme infantil, que visitara em Gasparzinho e Desventuras em Série, ou o melodrama de Cidade dos Anjos. A câmera, de dentro de um carro em movimento, está apontada para a estrada à frente. O barulho do motor é sustado a cada cartela negra que aparece com os créditos da produção, num jogo bastante tenso entre o ruído da rua e o silêncio total. Há uma evidente tentativa de "vida real" ali. É isso: Silberling decidiu fazer seu "filme independente".

Curioso perceber como esse rótulo já deixou de ser uma indicação meramente econômica (ainda que Um Astro em Minha Vida faça parte dela, uma vez que foi feito fora dos grandes estúdios de Hollywood). Há aí um repertório visual bastante claro, e Silberling o reproduz com dedicação. No supermercado latino, onde Paz Vega trabalha e onde Morgan Freeman vai fazer uma pesquisa de campo para o próximo personagem que interpretará, a câmera busca aqueles quadros estáticos de uma vida colorida artificialmente, os poucos clientes e funcionários em planos isolados, perdidos no meio dos produtos e das prateleiras. É aquela impressão de existência vazia e modorrenta, tão cara ao cinema-Sundance, onde os personagens erram sem muito que fazer a não ser continuar errando, para que eventualmente se deixem transformar por algum agente exterior. E, uma vez que o "astro" entre definitivamente em sua vida, estes mesmos planos da banalidade cotidiana passarão a ser preenchidos por alguma movimentação, talvez até uma câmera na mão, que nos mostre que a estabilidade daquele ambiente foi mesmo quebrada. Algo sobre a natureza da alma humana em tempos de crise pós-moderna acabará nos sendo dito e, lição devidamente aprendida, poderemos todos seguir em frente com nossas vidas patéticas.

É exatamente aí que Brad Silberling traça um limite: a alma humana não é, em nenhum momento, parte dos alvos de Um Astro em Minha Vida. Pelo menos não em sua configuração plastificada, pessimista-pop, inventário das lições de um livro de auto-ajuda. O interesse aqui é mesmo pelos exteriores, pela dimensão visível da experiência do mundo, e assim este estilo "independente" de filmar é bastante eficiente, mas seu princípio moral não interessa. Morgan Freeman interpreta um ator sem nome (mas, pelas diversas referências espalhadas pelo filme – co-estrelou seu último blockbuster com Ashley Judd, aprendeu uma dica de como usar camisetas que valorizem o bíceps com Clint Eastwood – não é impossível imaginar que Freeman esteja fazendo seu próprio papel). Sem trabalho há quatro anos, ele está tentando voltar à cena fazendo um pequeno papel num filme, adivinhem?, independente. Mas sua paixão pelo ofício de ator não cessou durante a aposentadoria forçada, pelo contrário. Freeman dialoga com o mundo a partir de uma consciência da encenação da vida real. Ao ajudar Scarlet, uma caixa de supermercado que quer largar o emprego e tentar ser secretária de uma grande empresa, as dicas de Freeman são todas feitas como se a moça estivesse se aprontando para entrar num palco: postura, maquiagem, exercícios de voz, ensaios. Neste universo de atores de si mesmo, em que todas as emoções são trazidas à superfície pois só assim se tornam visíveis a quem as assiste, qualquer investigação da alma estaria fadada ao fracasso.

Assim, Silberling frustrará todos os picos de suposta profundidade na trajetória destes dois personagens. Ainda temos o encontro de opostos, ainda temos a relação que imediatamente se estabelece, como se o destino já tivesse se encarregado de juntá-los e não fosse necessário disfarçar uma falsa repulsa inicial. Ainda serão um homem e uma mulher cruzando meia Califórnia dentro de um carro, parando no caminho para se contaminar dos coadjuvantes deste trajeto, e eventualmente contaminando um ao outro com suas mais bonitas qualidades e seus melhores defeitos. O próprio título original do filme, indica o tipo de trabalho de Scarlet (ela é trabalha naquele caixa-rápido do supermercado que só aceita compras de 10 produtos ou menos), indica, acima de tudo, a brincadeirinha que os dois fazem entre si, destacando as 10 coisas que mais odeiam e as 10 coisas que querem ter para sempre no mundo. Prato cheio para um desfile de insights engrandecedores, ele e ela não listarão mais que o óbvio: odeiam precisar de dinheiro, amam a família, odeiam envelhecer, amam o carro comprado com muito suor. Nada demais.

E aí, talvez, esteja o maior valor de Um Astro em Minha Vida: sua consciência da banalidade automática que se adiciona a qualquer filme que tente falar de uma vida que não lhe diz respeito, sobre a qual tem uma lista de mandamentos e certezas, mas que, arredia como só ela, nunca é realmente reproduzível nas imagens. Um Astro em Minha Vida é sobre... nada demais, na verdade. Porque não interessa o "sobre". Interessa o "quem" e o "como". Daí o estapafúrdio da junção de Morgan Freeman e Paz Vega se desfazer logo no primeiro encontro dos dois na tela: temos ali duas pessoas que nunca vimos juntos, dois grandes atores que nunca dividiram o mesmo espaço, que não conhecem os truques de atuação um do outro, e que nunca tiveram Silberling por trás da câmera que os registra. A vontade do filme é a de ser filme, simplesmente. De propor um caminho narrativo, de reunir os elementos que preencherão este caminho, e então observar seu desdobramento.

Os extras do DVD colocam sob o título de "entrevistas" duas pequenas cenas em que Morgan Freeman colhe o depoimento de dois figurantes do filme. Assim, sem olhar para a câmera, a conversa se estabelece com uma franqueza irresistível, e saberemos que a mulher que interpreta a vendedora de esfregões é, na verdade, uma atriz que abandonou a vida no interior para tentar a sorte na Califórnia, e que o jovem atendente do filme é um imigrante vietnamita cheio de teorias sobre a felicidade. Não é difícil imaginar estes dois momentos de bastidores como parte de alguma das seqüências do filme em si. Um Astro em Minha Vida é cheio destas pequenas jóias do improviso (se realmente improvisado ou escrito para parecer improvisado, pouco importa). Cheio desse “deixar acontecer” que vai revelando emoções que nem sequer supúnhamos existir ali. O chamado para embarcar na viagem é tão intenso quanto desprovido de promessas: vidas não se modificarão, lágrimas não serão vertidas, amores não serão eternizados. É o preço que se paga pelo apego aos exteriores. Como nas canções que os protagonistas tentam ensinar um para o outro, ela em espanhol, ele em inglês, há a repetição fonética, a aproximação quase perfeita ao som da língua estrangeira. Mas aprender uma outra língua, apreender um novo modo de vida no espaço tão curto de um filme, isso já não parece possível.

Freeman repete ao longo de todo o filme que adora os "strong endings". Não os finais "felizes", mas os finais fortes. Um Astro em Minha Vida tem um desses. À maneira independente, é claro: seco, inesperado, inconcluso. Nada demais, é verdade. Não fosse a sensação de que presenciamos algo realmente precioso acontecer ali.

Texto: Rodrigo de Oliveira

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