DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

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segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O Sorriso de Karenin - excertos


"No começo do Gênese está escrito que Deus criou o homem para reinar sobre animais, mas podemos explicar isso dizendo que ele apenas lhe emprestou esse poder. O homem não era o proprietário mas apenas o gerente do planeta, e um dia teria que prestar contas da sua gestão. Nada nos garante que Deus desejasse realmente que o homem reinasse sobre as outras criaturas. É mais provável que o homem tenha inventado Deus para santificar o poder que usurpou  da vaca e do cavalo. O direito de matar um veado ou uma vaca é a unica coisa sobre a qual a humanidade inteira manifesta acordo unânime, mesmo durante as guerras mais sangrentas."

"Esse direito nos parece natural porque somos nós que estamos no alto da hierarquia.”
“Nunca se poderá determinar com certeza em que medida nosso relacionamento com o outro é o resultado de nossos sentimentos, de nosso amor ou não-amor, de nossa benevolência ou de nosso ódio, e em que medida ele é determinado de antemão pelas relações de força entre os indivíduos. A verdadeira bondade do homem só pode se manifestar com toda a pureza, com toda a liberdade, em relação àqueles que não representam nenhuma força. O verdadeiro teste moral da humanidade (o mais radical, num nível tão profundo que escapa a nosso olhar) são as relações com aqueles que estão à nossa mercê: os animais. É aí que se produz o maior desvio do homem, derrota fundamental da qual decorrem todas as outras."

"Descartes deu o passo decisivo: fez o homem 'maître et propriétaire de la nature'. Que seja precisamente ele quem nega de maneira categórica que os animais tenham alma, eis aí uma enorme  coincidência. O homem é senhor e proprietário, enquanto o animal, diz Descartes, não passa de um autômato, uma máquina animada, uma machina animata. Quando um animal geme, não é uma queixa, é apenas o ranger de um mecanismo que funciona mal. Quando a roda de uma charrete range, isso não quer dizer que a charrete sofra, mas apenas que ela não está lubrificada. Devemos interpretar da mesma maneira os gemidos dos animais, e é  inútil lamentar o destino de um cachorro que é dissecado vivo num laboratório" 
"Nietzsche está saindo de um hotel em Turim. Vê diante de si um cavalo, e um cocheiro espancando-o com um chicote. Nietzsche se aproxima do cavalo, abraça-lhe o pescoço, e  sob o olhar do cocheiro, explode em soluços."

"Isso aconteceu em 1889, e Nietzsche já estava também distanciado dos homens. Em outras palavras: foi precisamente nesse  momento que se declarou sua doença mental. Mas, para mim, é justamente isso que confere ao gesto seu sentido profundo. Nietzsche veio pedir ao cavalo perdão, por Descartes. Sua loucura (portanto seu divórcio da humanidade) começa no instante em que chora sobre o cavalo. É esse Nietzsche que amo, da mesma maneira que amo Tereza, acariciando em seus joelhos um cachorro mortalmente doente. Vejo-os lado a lado: os dois se afastam do caminho em que a humanidade, “proprietária e senhora da natureza”, prossegue sua marcha adiante. O amor que se tem por um cachorro escandaliza as pessoas.”

Milan Kundera - "A Insustentável Leveza do Ser"

2 comentários:

  1. Adorei a parte do Nietzsche,
    espetacular, ele sempre me emociona.

    Grande beijo, Adri.

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  2. Oi Querida!

    É... eu também sempre me emociono....

    Grande beijo

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