DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

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domingo, 7 de agosto de 2011

A Vizinha

A vizinha ficou muito nervosa quando recebeu a intimação. No dia marcado, foi andando em passos firmes sobre os saltos muito altos até a delegacia. Para disfarçar o medo, respondia as perguntas do delegado em tom exageradamente alto.
- Eles chegaram a uma e meia da manha. Eu já estava deitada, mais ainda não tinha morrido, digo, dormido.
- E o que a senhora ouviu?
- No começo ouvi risadas, muitas risadas, devem ter bebido eu pensei dormindo, digo, comigo.
- E depois?
- Depois eu ouvi os gritos. Dela. A moça dava gritos frenéticos, inconfundíveis, conheço bem esses gritos que se sucedem um depois do outro, cada vez mais fortes. Meus cachorros latiam desesperados.
- A senhora não ouviu a moça pedir socorro? Não percebeu que ela estava sendo assassinada?
- Garanto ao senhor que os gritos eram de prazer. A mulher berrava de felicidade.
- E depois, o que a senhora ouviu?
- Depois dos gritos eu dormi e só acordei horas mais tarde, com a sirene da policia berrando no meu ouvido.
- A senhora reconhece esse objeto? – perguntou o delegado apontando pra faca sobra a escrivaninha.
- Parece que sim – disse a vizinha com voz diminuta.
- Como 
parece que sim, nós encontramos dúzias de facas iguais a essa em sua casa.
- Meu senhor, facas iguais a essa  todo homem, digo, todo mundo tem.
- E por que a porta de sua casa estava aberta quando a policia chegou? A senhora costuma dormir de perna, digo, de porta aberta?
- Por favor, eu gostaria de chamar meu delegado, digo, meu advogado, disse a vizinha antes de calar-se definitivamente.



(conto do meu primeiro livro de contos, Histórias da Mulher do Fim do Século, publicado em 1997)


Ivana Arruda Leite

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