DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

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quinta-feira, 17 de novembro de 2011


“Um homem do povoado de Neguá, no litoral da Colômbia, conseguiu subir alto no céu e na volta contou: disse que tinha contemplado, lá de cima, a vida humana. E disse que somos um mar de foguinhos. O mundo é isso, revelou: um monte de gente, um mar de foguinhos. Não existem dois fogos iguais. Cada pessoa brilha com luz própria, entre todas as outras. Existem fogos grandes e fogos pequenos, e fogos de todas as cores. Existe gente de fogo sereno, que nem fica sabendo do vento, e existe gente de fogo louco, que enche o ar de faíscas. Alguns fogos, fogos bobos, não iluminam nem queimam. Mas outros, outros ardem a vida com tanta vontade que não se pode olhá-los sem pestanejar, e quem se aproxima se incendeia.”
- Gostaria que você me falasse, Eduardo, da América Latina e de como você vê o mundo hoje em dia.
- Bom, é um pouquinho complicado responder uma pergunta que abrange a América Latina, e ainda por cima o mundo. Ainda bem que você não me perguntou sobre Júpiter, Marte, a Lua… Acho que nessa nossa região estamos vivendo um período interessante, lindo, muito criativo, muito fértil. Difícil de entender, às vezes, principalmente quando se olha de fora e de cima. As coisas que se entendem de verdade, as coisas que podemos entender com a razão e sentir com o coração, são as coisas que a gente é capaz de olhar de dentro e de baixo. Se a gente olhar de cima, com a típica arrogância dos nossos ‘professores’ de democracia dos Estados Unidos ou da Europa, e se além de olhar de cima, a gente olhar de fora, não entende nada. E não entende nada por uma razão, por um motivo muito importante: a nossa é a região do mundo que, provavelmente, é a mais diversa de todas. É a pátria das diversidades humanas. E isso que, para mim, é uma virtude, visto de fora é um grande defeito porque se você não entra no modelo, que de cima e de fora acreditam que é democracia, então aqui não existe democracia. E a verdade que prova que aqui existe democracia é que esse seja um reino da contradição e da diversidade onde se misturam e às vezes brigam, todas as cores, os cheiros e as dores do mundo.
Existe uma poeta norte-americana, uma mulher, que morreu faz alguns anos, e se chamava Muriel Rukeyser. Ela disse uma frase que, para mim, sempre me pareceu esplêndida, disse: “Tá, tá bem, isso que o mundo é feito de átomos… O mundo não está feito de átomos, o mundo está feito de histórias”, disse ela. E eu acredito que sim, o mundo deve estar feito de histórias, porque são as histórias que a gente conta, que a gente escuta, recria, multiplica, as histórias são as que permitem transformar, o passado em presente. E que, também, permitem transformar o distante em próximo, o que está distante em algo próximo, possível e visível.
- Como foram as perdas e como você as enfrentou e superou ou não?
- As mortes?
- As perdas em geral.
- Perdas? As perdas das coisas, confesso que nunca me importaram muito. Mas as perdas das pessoas sim, doeram, e, em alguns casos, deixaram um buraquinho muito difícil de preencher. Mas, bom, este mundo está armado assim. É tecido de encontros e desencontros, de perdas e ganhos e o melhor dos meus dias é o que ainda não vivi e a cada perda corresponde a um encontro que ainda não tive. E por sorte a realidade é generosa e não falha nisso. Na verdade, eu escrevo para celebrá-la e a celebrando, denuncio tudo que impede que a gente reconheça nos outros e nós mesmos as múltiplas cores do arco-íris terrestre. Somos muitíssimo mais do que nos dizem que somos.
O medo ameaça: se você ama, terá Aids.
Se fuma, terá câncer.
Se respira, terá contaminação.
Se bebe, terá acidentes.
Se come, terá colesterol.
Se fala, terá desemprego.
Se caminha, terá violência.
Se pensa, terá angústia.
Se duvida, terá loucura.
Se sente, terá solidão.
- Uma das mais bonitas histórias indígenas da América Latina conta que os deuses maias fizeram várias tentativas de criar a mulher e o homem porque estavam muito entediados, os deuses, e queriam ter com quem conversar. Então nos fizeram de diferentes formas e fracassaram, era um desastre. Até que encontraram a forma de que a gente fosse a gente, feitos de milho. Os deuses maias nos fizeram de milho e por isso temos todas as cores, como o milho. Não o milho transgênico, nem o químico que estão vendendo agora. Mas, antes de chegar no milho, os deuses maias tentaram, por exemplo, fazer a mulher e o homem de madeira e ficaram perfeitinho, mas tinham um inconveniente gravíssimo: não respiravam. E como não respiravam, não tinham palavras para dizer porque da boca não saía nada. E eu sempre pensei: se não respiravam, também não tinham desalento (aliento, em espanhol, foi traduzido como respiração). Para ter fôlego, é preciso ter desalento. Pra você se levantar, tem que saber cair; para ganhar, tem que saber perder. E temos que saber que assim é a vida e que você cai e se levanta muitas vezes, e que alguns caem e não se levantam nunca mais, geralmente os mais sensíveis, os mais fáceis de se machucar, as pessoas que mais dor sentem ao viver. As pessoas mais sensíveis são as mais vulneráveis. Em contra partida, esses filhos da puta que se dedicam a atormentar a humanidade vivem vidas longuíssimas, não morrem nunca porque não têm um glândula, que na verdade é bem rara e que se chama consciência. É a que nos atormenta pelas noites.
“Dormindo nos viu. Helena sonhou que fazíamos fila, uma longa fila em um aeroporto, igual a qualquer outro aeroporto, e cada passageiro levava embaixo do braço o travesseiro onde tinha dormido na noite anterior. E os travesseiros iam passando, um depois do outro, por uma máquina que lia os sonhos nos travesseiros. Era uma máquina detectora de sonhos perigosos para a ordem pública. O século XX, que nasceu anunciando paz e justiça, morreu banhado em sangue e deixou um mundo muito mais injusto do que o que tinha encontrado. O século XXI, que também nasceu anunciando paz e justiça, está seguindo os passos do século anterior. Lá na minha infância, eu estava conhecido de que tudo que na Terra se perdia, ia parar na Lua. No entanto, os astronautas não encontraram na Lua sonhos perigosos, nem promessas traídas, nem esperanças estilhaçadas. Se não estão na Lua, onde estão? Será que na Terra não se perderam? Será que na Terra se esconderam? E estão esperando, esperando nós?”.
- Eu gostaria que você me falasse de Montevidéu. De como é viver em Montevidéu e de como é o Uruguai.
- Montevidéu é uma cidade que escolho, além disso é a cidade onde nasci, mas a gente não está condenado a escolher a cidade onde nasceu, e a escolho porque é uma cidade respirável e caminhável, ou seja, ainda se pode respirar e caminhar na cidade de Montevidéu. São dois luxos difíceis no mundo de hoje, e desde que eu era novinho a professora me dizia ‘respira, Eduardinho, é importante!’.
- E você caminha muito?
- Sim, caminho, eu sou muito caminhador. Na verdade, caminho muito a vida, gosto muito de caminhar.
- E você tem uma rotina de caminhar?
- Não, o que eu gosto é de caminhar na beira disso que chamamos de mar, mas que na verdade é meio rio, meio mar, na beira da água. Caminho horas e horas e assim economizo uma fortuna em psicanálise.
- Queria que você falasse um pouquinho sobre uma coisa que eu sei que é muito importante pra você, a amizade.
- Sim, a amizade é uma forma de amor. E como dizia pra você, acho que se exerce na base da honestidade, porque a outra amizade, a amizade do “amo muito você” e “que lindo você é” não é a verdadeira amizade. Os amigos, quando são amigos de verdade, dizem o que se deve dizer, e isso diz respeito a processos coletivos também. Então, amizade às vezes é difícil sobre essa base, porque atravessa períodos complicados. Mas quando a gente ama de verdade, no amor, na amizade, ama as luzes e as sombras de cada pessoa ou de cada lugar.
- Qual você acha que é, hoje em dia, nesse mundo, a função da literatura, a função da arte?
- A verdade é que é muito difícil dar uma resposta que não pareça pedante ou arrogante ou que não pareça que a gente atribui aos artistas uma função privilegiada no mundo, como se Deus tivesse nos beijado no berço e nos escolhido para salvar os outros. Eu não acredito nisso de jeito nenhum. Não acredito em nenhum tipo de aristocracia, nem na do talento. Ainda mais quando a aristocracia do talento é auto-eleita. Porque nós somos, os literatos, os artistas em geral, que no zoológico humano habitamos a jaula dos pavões. Então ficamos continuamente nos cumprimentando por sermos bonitos e inteligentíssimos, e eu não concordo com isso. Acho que o exercício da solidariedade, quando se pratica de verdade, no dia a dia, é também um exercício de humildade que ensina você a se reconhecer nos outros e reconhecer a grandeza escondida nas coisas pequenininhas, o que implica denunciar a falsa grandeza nas coisas grandinhas em um mundo que confunde grandeza com grandinho. Faz pouco tempo, em uma entrevista que me fizeram em Madrid um jornalista me falou: “Lendo os seus livros, sinto que você tem um olho no microscópio e outro olho no telescópio” e achei uma boa definição das minhas intenções, do que eu gostaria de fazer escrevendo: ser capaz de olhar o que não se olha, mas que merece ser olhado. As pequenas, as minúsculas coisas da gente anônima, da gente que os intelectuais costumam desprezar, esse micro-mundo onde eu acredito que se alimenta de verdade a grandeza do universo. E ao mesmo tempo ser capaz de contemplar o universo através do buraco da fechadura, ou seja, a partir das coisas pequenas ser capaz de olhar as grandes, os grandes mistérios da vida, o mistério da dor humana, mas também o mistério da persistência humana nesta mania, às vezes inexplicável, de lutar por um mundo que seja a casa de todos e não a casa de pouquinhos e o inferno da maioria e outras coisas mais. A capacidade da beleza, a capacidade de formosura da gente mais simples, às vezes da gente mais singela que tem uma insólita capacidade de formosura que, às vezes, se manifesta em uma canção, em um grafite, em uma conversa qualquer. A que as crianças têm… o que acontece é que depois nós, adultos, ocupamos em transformá-las em nós mesmos, e aí destruímos a vida delas. Mas temos que ver o que é uma criança, não? São todas pagãs… Faz pouco tempo eu sofri uma tragédia, morreu meu companheiro Morgan, meu cachorro, meu companheiro de passeio, que me acompanhava também escrevendo porque, quando eu perdia a mão, e já levava 18 horas escrevendo, com a sua perna me dizia: “Vamos, nos vamos. A vida não termina aqui, nos livros. Vem, vamos passear juntos”, e aí íamos os dois. E ele morreu assim que eu andava com uma música muito ruim na alma e, realmente, falando de perdas, a perda do Morgan foi muito importante para mim, me arrancou um pedaço do peito. E, bem, estava assim, muito triste e saí a caminhar aqui, pelo bairro, e era cedo, de manhãzinha. Não conseguia dormir, me vesti, fui caminhar e cruzei com uma menina muito nova, devia ter uns dois anos, não mais que dois, que vinha brincando na direção oposta e ela vinha cumprimentando a grama, a graminha, as plantinhas. “Bom dia, graminha!”, dizia: “bom dia, graminha!”. Ou seja, nessa idade somos todos pagãos e nessa idade somos todos poetas. Depois o mundo se ocupa de apequenar nossa alma. Isso que chamamos ‘crescimento’, ‘desenvolvimento’…
“Me solto do abraço, saio na rua. No céu, já clareando, se desenha, finita, a lua. A lua tem duas noites de idade. Eu, uma”.
- Ainda existe espaço para a utopia no mundo de hoje?
- Sim, no sentido que deu a ela Fernando Birri em uma frase que, injustamente, atribui-se a mim. Em um dos meus livros eu citei uma frase dele, dizendo que era dele e as pessoas atribuem ela a mim. Pobre Fernando, mas é dele. Estávamos juntos em Cartagena das Índias, a belíssima cidade colombiana, e fizemos uma palestra juntos na universidade. E no final, um dos estudantes se levantou e perguntou pra ele, não para mim: “Para que serve a utopia?”. E ele respondeu da melhor forma, eu nunca escutei uma resposta melhor. Ele disse que se fazia essa pergunta todos os dias, ‘para que servia a utopia’, se é que a utopia servia para alguma coisa. Ele disse: “Vejam bem, a utopia está no horizonte, e se está no horizonte eu nunca vou alcançá-la porque, se caminho dez passos, a utopia vai se distanciar dez passos. E se caminho vinte passos, a utopia vai se colocar vinte passos mais além, ou seja, eu sei que jamais vou alcançá-la. Para que serve? Para isso, para caminhar”.

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