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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Fome, fome, fome


Você é uma artista da fome? Eu não era, mas me tornei. Explico, sim. E, provavelmente, depois de explicar nunca mais nenhum homem irá ficar comigo. Ainda assim, eu prossigo. Rasgar a alma é a única coisa que posso e sei fazer.

“Um artista da fome” é um conto de Franz Kafka com mil desdobramentos. Mas vamos nos ater apenas a toscas pinceladas: ele expõe a história de um jejuador profissional, uma atração de circo, que um dia, mesmo sem precisar manter seu jejum, o mantém e morre. Suas últimas palavras são sobre por que passou a vida inteira jejuando: “Eu não pude encontrar o alimento que me agrada. Se eu tivesse encontrado, pode acreditar, não teria feito nenhum alarde e me empanturrado como você e todo mundo.”

Antes eu não era uma artista da fome, eu não jejuava: me virava com o que tinha, com o que dava, com o que parecia possível, com o que talvez me alimentasse. Talvez foi meu pão e vinho, minha carne e sangue, por muito tempo.

Então, a cada grão de areia a menos na ampulheta, sem premeditar, sem sequer desejar, eu fui me tornando uma artista da fome: não consigo me empanturrar como todo mundo (quem se empanturra não saboreia) e até mesmo esses nacos de carne que me garantiam alguma sobrevivência se tornaram intragáveis.

Nunca encontrei um alimento que me saciasse e é por isso que me tornei uma retirante emocional. Eu sempre vou embora – às vezes eles vão antes. Sem tônus que sustente a relação além da cama (às vezes nem nela), sem olho, sem fala, sem admiração, sem afeto, ir embora é o que me resta fazer. E doi. Sempre. Doi um rio Tietê fedido de dor.

Ah, os homens... eles dizem que gostam de sexo. Todos os que eu tive se proclamavam absolutamente amantes da coisa. E não eram. Não estavam nem perto de ser. O que eles amavam é gozar. Eles não tinham o menor interesse em sexo de fato, muito menos no sexo com uma mulher, menos ainda em sexo e afeto com uma mulher. Se o gozo e seu consequente relaxamento pudessem ser provocados com a mesma facilidade por uma cabra, uma melancia podre ou um pedaço de estopa, eles estariam trepando felizes apenas com cabras, melancias podres ou pedaços de estopa. Eles estariam agora mesmo casados com cabras, melancias podres ou pedaços de estopa.

É, eu sei. Eu não tive sorte.

Passei noites sem conta apenas olhando em vão meus homens queridos, tão desejados, sempre adormecidos como princesas da Disney. Às vezes eu ia chorar de tesão no banheiro e voltava para o túmulo da cama, para acompanhar o sono perfeito do príncipe cego. Meu Deus, como os homens falam e o quanto eles não fazem... Talvez se um, um que fosse, apenas um me visse, com seus olhos imensos, talvez eu pudesse matar minha fome, por um dia ou algumas horas ao menos. Mas eu acredito nisso? Eu ainda acredito nessa possibilidade?

“Do que você tem fome?” me perguntou alguém outro dia.Como diz a charmosa de doer Scarlett Johansson numa propaganda qualquer: “I don’t want a million things, just that one special thing: love”. No amor cabe tudo. E é de tudo, portanto, que eu tenho fome. 


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