DOE PALAVRAS

Um movimento para levar mensagens de força aos pacientes com câncer do Instituto Mário Penna.

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terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Outra cama




É tudo tão confortável
— esse fazer amor,
esse dormir juntos,
a suave delicadeza…

[Bukowski]
                                                                                                                                          
Eu ficava ali, dançando. Como se não existisse tempo, olhos ao redor. Eu só ficava ali, dançando. Três horas da manhã, as pessoas todas em bandos, falando alto, sorrindo muito, jogando fumaça pra cima, música ruim, alguém enchendo meu copo, alguém recitando poesia, vários rodopios, uma garrafa quebrada, todo mundo se atrevendo. Eu me desfazia e dançava entre cometas, bêbados e vagabundagem.
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Me desesperei quando ele entrou e sentou-se sozinho no fundo do bar. Acendeu um cigarro, virou uma dose e o mundo se resumia então àquele momento. Tentava pegar seus olhos, inventar um motivo para me aproximar, dizer alguma frase decorada, fingir que acreditava em qualquer coisa que ele dissesse e atuar em relação a todo esse lance atrativo entre o que se pensa e o que se diz. Quem sabe ele se comovesse ao notar minha maquiagem suja e borrada, minha boca vermelha, meus olhos mendigos.
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As coisas foram se desprendendo de mim. Ele me ofereceu uma bebida e deixei claro meu desejo. Guardava em sua pose a esperança bonita daqueles que não se escondem. Nossos sentimentos foram abafados pelo arrastar de mesas e cadeiras e novos corpos que se juntavam àquela multidão. Muita coisa sobressaltava, todos se entendiam, abraçavam a loucura abstrata do instante e se desvinculavam de tudo o que ousasse ser humano. Éramos além.
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Mais uma dança, a bebida caindo do copo, suas mãos passeando em mim de cima a baixo, rascunhando como que num último retoque todo o meu corpo. Eu seria dele ali mesmo, naquele instante, debaixo de toda a provocação que estava sendo entregue. Me beijou num misto de fúria, drama, comoção, exagero, furtando toda a história pervertida que até então estava sendo guardada em minha língua. Aquelas luzes, aquela sensação de sermos inflamáveis, uma explosão conjunta prestes a acontecer. Já estávamos à beira. Eu despencaria fácil.
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Tocava minhas pernas, firmava meus quadris, lambia meus lábios, mordia as pontas dos meus dedos, recitava sacanagens, ia me amarrando nele, assim, como se houvesse espaço para nós dois debaixo daquela jaqueta preta. Afoguei minha intensidade em seus braços e permiti, repetindo muitas vezes, que ele poderia ultrapassar. Que toda aquela pinta de imensidão dava acesso ao que era muito raso. Ele poderia ultrapassar, poderia ler minhas histórias, poderia zombar da minha cara de quem acredita em romances, poderia me deixar seriamente emocionada. Ele poderia ousar, montar suas putarias em meu pescoço e me fazer desamarrar todas as letras desordenadas que nunca foram ditas a ninguém. Que ele viesse. Que eu fosse.
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Me puxou pelas mãos e eu apenas segui, sem saber o caminho. Sem querer saber o caminho. Esbarrei em toda aquela gente, nas gargalhadas que ao tocar meu rosto me faziam sorrir, nos cheiros doidos de coisas que floresciam e iam se impregnando em minha pele, derrubei uma cadeira, traguei um cigarro que outra mão segurava e ouvi a porta batendo atrás de mim, enquanto atravessávamos a rua, correndo. Ele amassava minha mão, meu coração.
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Caminhamos até a estação de metrô mais próxima, pegamos o primeiro destino, sentamos e ficamos olhando um para o outro enquanto o céu era inteiro feito de labaredas. As cadeiras vazias, os fantasmas a observar nossa mudez. Todo aquele silêncio me enchia de palavras. Descemos e fomos andando até meu apartamento. Indecências no elevador, convites para trepar na escada, sussurros para não acordar os vizinhos e um passo de tango mal feito no meio do corredor.
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Conheceu meu corpo como se nada fosse novidade, como se ele próprio tivesse moldado todos os detalhes naquela manhã que nascia. Seu peso era o peso que eu nasci para medir. Enquanto ele afastava numa carícia os cabelos que caiam em meu rosto, meu queixo se apoiava em seu peito e não sabíamos se era melhor juntar ou separar tudo antes que alguma coisa se quebrasse. Levantei, amarrei as dúvidas junto com os cabelos e escrevi na parede com meu batom vermelho um verso que rasgou meu pulso e deixou muita coisa a mostra. O resto eu havia esquecido na mesa do bar.
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No chuveiro, a água deixou que escorressem as marcas do que foi feito. Ficamos abraçados e sua pele ia aquecendo minhas extremidades. Aquele rosto bonito, a fumaça, nossos pés, nossa volta para a cama, o chão molhado e a gente se olhando sabendo que seria a última vez. Gravando vozes, medindo os tons, identificando as cores, colocando pimenta, adiando a hora de ir embora. Queríamos chuva para passarmos o dia em cima do colchão vivendo de prazer, música, doce e conversas sobre coisa nenhuma.
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Nos olhamos de perto, lembramos nosso olhar de longe, olhava já com saudades, agarrava com as pernas, com os braços, com todos os movimentos. Mordia, arranhava, feria para fazer carinho, as palavras foram diminuindo e a porta bateu. Um morango explodiu em minha boca, pacote de souvenirs. Fiquei ali, dançando, numa violência sutil, como se não existisse tempo. Misturei tudo com fogo. Falaria de amor no próximo passo.
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Numa próxima cama.

Jaya Magalhães

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